Foi publicada este ano na Inglaterra a chamada Revised Standard Edition (RSE) da obra de Sigmund Freud, em 24 volumes. É uma boa ocasião, portanto, para retomar alguns pontos da história das traduções de Freud, um tópico que foi muito importante para diferentes recepções e apropriações da obra freudiana.
A primeira tradução do conjunto da obra de Freud não foi nem para o inglês nem para o francês, línguas para as quais, até a segunda metade do século XX, havia apenas traduções de livros isolados do psicanalista austríaco, mas sim para o espanhol, pela editora Biblioteca Nueva de Madrid, em 1922, a partir de uma indicação do filósofo José Ortega y Gasset. O próprio Freud escreveu uma carta cumprimentando o tradutor espanhol, Luiz Lopez Ballesteros, e a tradução se tornou uma referência para outras línguas neolatinas como o português, além de ser muito difundida nos países de língua espanhola da América Latina.
Foi só na década de 1950 que James Strachey, irmão do escritor e famoso biógrafo Lytton Strachey, deu início ao projeto da Standard Edition (SE), nome que recebeu a tradução da obra psicológica completa de Freud para o inglês. A publicação do último volume deste projeto foi apenas em 1974, quando o próprio Strachey já havia morrido. Para a realização da SE, Strachey precisou tomar uma série de decisões, por exemplo em questões editoriais (quais obras colocar e quais não, qual a ordem de organização) e de tradução (como converter os termos técnicos criados por Freud). Sua decisão de traduzir alguns termos freudianos usando palavras latinas, como ego, superego, catexia etc., foi muito criticada por autores como Bruno Bettelheim, pois se dizia que o inglês havia “cientificizado” desnecessariamente o texto de Freud, que no original utilizava palavras da linguagem cotidiana alemã. No entanto, o organizador da nova edição, Mark Solms, defende as opções de Strachey com dois argumentos: primeiro, que outros tradutores de Freud para o inglês já haviam usado o termo ego, por exemplo, e que este também era comumente utilizado para a tradução de textos de filósofos alemães anteriores a Freud; e, em segundo lugar, porque o costume dos textos científicos alemães, segundo Solms, seria de utilizar termos cotidianos e descritivos, enquanto os textos científicos em língua inglesa tenderiam a criar termos específicos, muitas vezes emprestando do latim e do grego, e portanto Strachey estava apenas adaptando a terminologia ao costume da língua para a qual estava traduzindo.
Mesmo com essas controvérsias, a SE se tornou a edição padrão que o seu próprio nome reivindicava, e passou a inspirar projetos semelhantes em outras línguas, como o italiano e o francês. Aqui no Brasil, no entanto, foi necessário esperar até o século XXI para se ter uma tradução direta do alemão da maior parte da obra de Freud, porque as iniciativas anteriores eram feitas a partir de outras traduções, como o caso da editora Imago, que na década de 1980 fez uma tradução literal da SE inglesa, com todos os problemas advindos daí.
No final da década de 1970, a editora argentina Amorrortu, refletindo o grande desenvolvimento da psicanálise na Argentina, começou a publicar uma nova edição da SE em espanhol. Embora mantivesse a divisão e organização de textos e os comentários e notas de Strachey, a edição argentina empreendeu uma nova tradução do texto a partir do alemão, por José Luis Etcheverry, fazendo com que a língua espanhola passasse a ser a única a ter duas grandes traduções diferentes das obras de Freud. Além disso, a edição da Amorrortu modernizou a terminologia a partir do uso mais recente e incorporou várias obras que não haviam sido publicadas ainda na época da primeira edição da Biblioteca Nueva (que continua a ser publicada ainda hoje e incorporou esses mesmos textos em edições posteriores).
Na década de 2010, começou a ser publicada a primeira tradução da obra de Freud para o português diretamente do alemão, feita por Paulo César de Souza para a Companhia das Letras. Mas, ao mesmo tempo, a obra de Freud caiu em domínio público no Brasil, ou seja, deixou de ter direitos autorais, em 2014, quando se passaram 75 anos da morte do autor. Isso tem estimulado desde então uma série de traduções, de livros isolados ou de conjuntos de textos freudianos, com ótimos aparatos editoriais e discussões das principais questões sobre a tradução de Freud. Inclusive, a editora Autêntica tem um projeto de Obra Incompleta de Freud, que é muito interessante tanto por questionar o próprio conceito de obra completa como por incluir obras neurológicas de Freud, algo que nenhuma das Standard Editions fez, apesar do fato de Mark Solms, o organizador da edição mais recente, ser também neurologista, além de psicanalista.
Por fim, ainda estão por serem feitos estudos que analisem como a difusão da tradução da Biblioteca Nueva e, posteriormente, a SE, no Brasil e de maneira mais geral na América Latina, influenciaram a recepção da psicanálise, a terminologia utilizada e mesmo a prática dos analistas latino-americanos, em especial daqueles que não compreendiam o alemão.
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