Leitura: BECKER, Annette. “Préface”. In BLOCH, Marc. L’Histoire, La Guerre, La Résistance. Paris: Gallimard, 2006 (Col. Quarto), p. vii-lx.
Em 2006, a Gallimard, dentro da sua coleção Quarto, de livros de grande qualidade de mais de mil páginas com capa mole, lançou uma coletânea de textos do historiador francês Marc Bloch (1886-1944), que pode ser alugada gratuitamente no Internet Archive. Além de textos muito conhecidos de Bloch, como a Apologia da história, a obra reúne alguns artigos e diários sobre a sua experiência como soldado durante a Primeira Guerra Mundial, além de outras fontes ligadas a ele menos notórias mas muito interessantes, como uma série de fotos tiradas durante a mesma guerra. Só por essa coleção de vários textos de um dos mais importantes historiadores do século XX como Bloch, o livro já valeria, mas a obra ainda contém um prefácio fabuloso, erudito e muito bem escrito, da historiadora especialista em Primeira Guerra Annette Becker, que acabei de terminar de ler. Ela, além de fazer a apresentação dos textos, os relaciona com a biografia, tanto profissional como pessoal, de Bloch, revelando este, antes de tudo, como uma atormentada mas sempre perceptiva e inteligente vítima dos tempos terríveis das duas guerras mundiais.
Bloch é um caso, sem dúvida, cuja lenda pessoal se tornou mais conhecida do que a sua contribuição historiográfica, mesmo que esta última esteja longe de ter sido pequena. A história é bem conhecida, mas não custa relembrá-la rapidamente: com mais de 50 anos de idade, problemas físicos, uma carreira estabelecida como historiador medievalista e seis filhos, Bloch renunciou a todos os seus postos para lutar pela Resistência francesa após a invasão do seu país pelos nazistas e a instituição do regime colaboracionista de Vichy. Ele foi capturado pelos alemães no final de 1943, torturado e fuzilado, juntamente com outros resistentes, no início de 1944, perto de Lyon. Após o fim da Segunda Guerra, Lucien Febvre, o criador da revista Annales juntamente com Bloch, revelou o destino do amigo e publicou algumas obras póstumas, entre elas a famosa Apologia da História, que, desde então, foi sempre lida como uma espécie de testamento do historiador. No entanto, Becker mostra que não é apenas a Apologia que discute esta relação entre passado e presente, mas toda a obra de Bloch, inclusive os textos de história medieval.
Existem muitos pontos a serem comentados sobre o texto de Becker, mas agora gostaria de me concentrar nessa questão do tempo presente, pois ela demonstra com profusão de fontes, incluindo a extensa correspondência entre Bloch e Febvre, como o primeiro não via nenhuma contradição entre ser um historiador e, ao mesmo tempo, um soldado, um patriota e um analista dos acontecimentos de seu tempo. Em outras palavras, a ideia muito difundida de que o historiador precisa de um certo distanciamento temporal para tratar dos fatos de seu tempo, de que uma história do tempo presente não poderia ser realizada, não fazia sentido para Bloch. Eu já conhecia A estranha derrota, texto que ele escreveu em 1940 logo após a invasão da França pelos nazistas e um dos primeiros exemplos dessa mesma história do tempo presente. Mas agora descobri que ele já fazia esse mesmo exercício desde a Primeira Guerra, inclusive com um texto teórico de 1921 sobre as falsas notícias da guerra que não poderia ser mais atual, com os negacionismos e as fake news do momento. Assim, defender que o historiador deve ser “neutro”, “objetivo”, “imparcial” (o que é, aliás, impossível na prática) é ir contra todo o legado deixado por Bloch, tanto em seus textos como no sacrifício de sua própria vida. Afinal, como ele mesmo diz na Apologia, citando um outro grande historiador, o belga Henri Pirenne: “O erudito que não gosta de olhar nem os homens, nem as coisas, nem os acontecimentos ao seu redor, merecerá talvez, como dizia Pirenne, o nome de um útil antiquário, mas será sábio se renunciar àquele de historiador”.

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