terça-feira, 25 de junho de 2024

Lista 1. As biografias de Baudelaire

 

 


O poeta e crítico de arte francês Charles Baudelaire (1821-1867), embora tenha sido o autor de apenas um livro extenso (a famosa coletânea de poemas As flores do mal, que ele passou a vida toda aprimorando e aumentando), e tenha morrido praticamente desconhecido e cedo, com 46 anos, nunca deixou de atrair e mesmo fascinar, desde então, leitores, críticos e comentadores. Um aspecto interessante sobre Baudelaire que pretendo explorar neste post é a quantidade enorme de biografias escritas sobre ele. Adotei um critério bastante rigoroso para definir quais seriam as obras consideradas como biografias aqui, não colocando vários estudos famosos sobre Baudelaire que, embora utilizem muitos elementos biográficos, possuem também a característica de ensaios críticos, como as obras de Walter Benjamin, Jean-Paul Sartre e Theophile Gauthier, entre outros, mesmo tendo clareza de que muitas vezes é bastante complicado fazer essa separação entre crítica e biografia. Também não considerei as cronologias de sua vida e obra, que aparecem no início de várias edições de sua obra, na Bibliothéque de la Pléiade e em outras editoras (existe até um livro que é uma cronologia detalhada, quase dia a dia, da vida de Baudelaire, Charles Baudelaire: une micro-histoire, de Raymond Poggenburg), pois elas não apresentam comentários e análises, ou pequenos ensaios biográficos de poucas páginas em edições de sua obra. Um outro critério de exclusão foi eliminar as obras com menos de 200 páginas, como não sendo contribuições tão originais, com exceção da primeira, de Asselineau, de importância fundamental para esse estudo. Ao contrário, foram incluídas algumas obras que não são uma biografia geral de toda a vida de Baudelaire, mas se concentram em aspectos específicos de sua vida, como sua relação com sua mãe ou com as drogas. Este não é um estudo exaustivo: com certeza, não tenho acesso, no momento, a várias outras obras que devem ter sido escritas sobre ele. Mesmo assim, consegui listar 18 livros, o que leva à conclusão de que Baudelaire é uma das personalidades mais biografadas que conhecemos. A que se deve isso? Essa questão muito me interessa. Para tentar uma resposta rápida, sem um exame mais extenso dessas várias obras, me parece que há vários aspectos da vida de Baudelaire que tornam uma narrativa desta bastante atraente para um leitor atual: 1) o fato de As flores do mal terem sido condenadas por imoralidade na Justiça francesa e alguns de seus poemas censurados; 2) as lendas, muitas vezes alimentadas pelo próprio poeta, sobre seu “satanismo”, sua vida dissoluta e seus comportamentos bizarros; 3) a relação dele com drogas como o ópio e o haxixe, às quais dedicou um livro, Os paraísos artificiais; 4) o fato de que sua reputação sofreu uma completa reviravolta em menos de 70 anos: se, na época de sua morte, ninguém, com exceção de alguns de seus amigos escritores, conhecia Baudelaire e nenhum de seus livros estava disponível para venda, em 1931, quando a editora Gallimard criou a que se tornaria a mais prestigiosa coleção literária do mundo atual, a Bibliothéque de la Pléiade, escolheu a obra de Baudelaire para iniciá-la (sua obra mantém o número 1 na coleção da Pléiade, tendo passado por três grandes atualizações, incorporando novos textos e com diferentes organizadores, a última delas mês passado, mais uma indicação do prestígio atual do autor). Ele também deixou uma extensa correspondência, publicada em dois volumes na mesma coleção da Pléiade e fonte indispensável para todas as biografias. Mesmo assim, ainda acho que devem haver outros elementos que explicariam essa profusão de biografias, o que exigiria um estudo mais longo e mais extenso, que não cabe aqui neste blog.

A lista é a seguinte, em ordem cronológica:

1.     «Charles Baudelaire: sa vie et sa œuvre», Charles Asselineau, 1869

2.     «Baudelaire: étude biographique», Eugéne Crepet, 1887; aumentado e atualizado por Jacques Crepet, 1907

3.     “Baudelaire”, François Porché, 1926

4.     «Baudelaire et sa mère», Albert Feuilllerat, 1943

5.     «Baudelaire», Enid Starkie, 1957

6.     “Baudelaire et la Présidente”, François Porché, 1957

7.     “Baudelaire Prince of Clouds: A Biography”, Alex de Jonge, 1976

8.     «Baudelaire The Damned», F. W. J. Hennings, 1982

9.     “Baudelaire», Claude Pichois e Jean Ziegler, 1987

10.  «Baudelaire», Henri Troyat, 1994

11.  «Baudelaire: les années profondes», Michel Schneider, 1994

12.  «Baudelaire», Joanna Richardson, 1994

13.  «L'enfant idiot : honte et révolte chez Charles Baudelaire», Claude Delarue, 1997

14.  «Baudelaire in Chains: Portrait of the Artist as a Drug Addict», Frank Hilton, 2004

15.  «Baudelaire», Jean-Baptiste Baronian, 2007

16.  «Charles Baudelaire», Rosemary Lloyd, 2008

17.  “Charles Baudelaire Biographie”, Heinz Duthel, 2012

18.  «Baudelaire», Marie-Christine Natta, 2017

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Marc Bloch e a história do tempo presente

 

Leitura: BECKER, Annette. “Préface”. In BLOCH, Marc. L’Histoire, La Guerre, La Résistance. Paris: Gallimard, 2006 (Col. Quarto), p. vii-lx.


           

         Em 2006, a Gallimard, dentro da sua coleção Quarto, de livros de grande qualidade de mais de mil páginas com capa mole, lançou uma coletânea de textos do historiador francês Marc Bloch (1886-1944), que pode ser alugada gratuitamente no Internet Archive. Além de textos muito conhecidos de Bloch, como a Apologia da história, a obra reúne alguns artigos e diários sobre a sua experiência como soldado durante a Primeira Guerra Mundial, além de outras fontes ligadas a ele menos notórias mas muito interessantes, como uma série de fotos tiradas durante a mesma guerra. Só por essa coleção de vários textos de um dos mais importantes historiadores do século XX como Bloch, o livro já valeria, mas a obra ainda contém um prefácio fabuloso, erudito e muito bem escrito, da historiadora especialista em Primeira Guerra Annette Becker, que acabei de terminar de ler. Ela, além de fazer a apresentação dos textos, os relaciona com a biografia, tanto profissional como pessoal, de Bloch, revelando este, antes de tudo, como uma atormentada mas sempre perceptiva e inteligente vítima dos tempos terríveis das duas guerras mundiais.

          Bloch é um caso, sem dúvida, cuja lenda pessoal se tornou mais conhecida do que a sua contribuição historiográfica, mesmo que esta última esteja longe de ter sido pequena. A história é bem conhecida, mas não custa relembrá-la rapidamente: com mais de 50 anos de idade, problemas físicos, uma carreira estabelecida como historiador medievalista e seis filhos, Bloch renunciou a todos os seus postos para lutar pela Resistência francesa após a invasão do seu país pelos nazistas e a instituição do regime colaboracionista de Vichy. Ele foi capturado pelos alemães no final de 1943, torturado e fuzilado, juntamente com outros resistentes, no início de 1944, perto de Lyon. Após o fim da Segunda Guerra, Lucien Febvre, o criador da revista Annales juntamente com Bloch, revelou o destino do amigo e publicou algumas obras póstumas, entre elas a famosa Apologia da História, que, desde então, foi sempre lida como uma espécie de testamento do historiador. No entanto, Becker mostra que não é apenas a Apologia que discute esta relação entre passado e presente, mas toda a obra de Bloch, inclusive os textos de história medieval.

            Existem muitos pontos a serem comentados sobre o texto de Becker, mas agora gostaria de me concentrar nessa questão do tempo presente, pois ela demonstra com profusão de fontes, incluindo a extensa correspondência entre Bloch e Febvre, como o primeiro não via nenhuma contradição entre ser um historiador e, ao mesmo tempo, um soldado, um patriota e um analista dos acontecimentos de seu tempo. Em outras palavras, a ideia muito difundida de que o historiador precisa de um certo distanciamento temporal para tratar dos fatos de seu tempo, de que uma história do tempo presente não poderia ser realizada, não fazia sentido para Bloch. Eu já conhecia A estranha derrota, texto que ele escreveu em 1940 logo após a invasão da França pelos nazistas e um dos primeiros exemplos dessa mesma história do tempo presente. Mas agora descobri que ele já fazia esse mesmo exercício desde a Primeira Guerra, inclusive com um texto teórico de 1921 sobre as falsas notícias da guerra que não poderia ser mais atual, com os negacionismos e as fake news do momento. Assim, defender que o historiador deve ser “neutro”, “objetivo”, “imparcial” (o que é, aliás, impossível na prática) é ir contra todo o legado deixado por Bloch, tanto em seus textos como no sacrifício de sua própria vida. Afinal, como ele mesmo diz na Apologia, citando um outro grande historiador, o belga Henri Pirenne: “O erudito que não gosta de olhar nem os homens, nem as coisas, nem os acontecimentos ao seu redor, merecerá talvez, como dizia Pirenne, o nome de um útil antiquário, mas será sábio se renunciar àquele de historiador”.

Freud e as traduções

  Foi   publicada este ano na Inglaterra a chamada Revised Standard Edition ( RSE ) da obra de Sigmund Freud, em 24 volumes. É uma boa o...