Tenho voltado a ler um de
meus autores favoritos, tanto por razões históricas como por outras que ficarão
mais claras ao fim deste post: o grego Heródoto. Ele é considerado o primeiro
historiador; embora, hoje em dia, se aceite que o mais correto é dizer que ele
foi o primeiro autor conhecido que falou de história cuja obra sobreviveu.
Culturas anteriores à Grécia, como o Egito e a Mesopotâmia, também produziram
obras com um caráter histórico, ou seja, que falavam do passado, mas estas
geralmente não estavam ligadas a um autor individual (FELDHERR; HARDY, 2011).
Ao mesmo tempo, estas, desde o início, foram usadas pelos governantes como
forma de legitimação (como os anais assírios). Embora se possa dizer que a obra
de Heródoto cumpre um pouco esta função de legitimação da Grécia clássica em
seu confronto contra a Pérsia, veremos que a questão é um pouco mais complexa e
que talvez uma de suas maiores qualidades seja exatamente não se reduzir a este
papel.
Por um lado, pode-se
dizer que Heródoto foi o autor mais importante da historiografia, pois o
próprio termo história, que é utilizado até hoje em todas as línguas
indo-europeias, vem do título de sua obra, que pode ser traduzido como
“pesquisas” ou “enquetes”. Então, em um sentido literal, Heródoto é realmente o
“pai da História”, como Cícero escreveu no século I a.C. No entanto, o modelo
de história que ele defendia era bem diferente daquele que acabou sendo praticado
pela grande maioria dos historiadores que vieram depois dele, que se basearam
muito mais em um outro historiador grego, Tucídides, uma geração mais jovem do
que Heródoto, que estabeleceu os elementos centrais da historiografia até o
século XX: o destaque para a história política, militar, diplomática e
econômica, a concentração nos governantes, a busca e a crítica de documentos
escritos, de preferência. Ao contrário, Heródoto, embora também estivesse
narrando uma guerra, fazia inúmeras digressões sobre assuntos não relevantes
diretamente para isso, dava preferência ao testemunho sobre o documento (quase
tudo o que ele contava vinha sempre do que ouviu de alguma outra pessoa), mesmo
quando esse testemunho parecia absurdo ou fantasioso, como no caso de lendas
sobre formigas devoradoras de homens. Ele também se interessava por inúmeras
outras questões que, no modelo de Tucídides, não seriam assuntos da história,
como, por exemplo, os costumes sexuais de determinadas tribos ou os crocodilos
do Egito; ele estaria mais próximo de um “contador de estórias” do que de um historiador,
na visão atual (MOMIGLIANO, 2004). Por isso, o próprio Tucídides foi o primeiro
a criticar Heródoto e apontar que ele também seria o “pai das mentiras”.
Até a primeira metade do
século XX, a história concentrada nos “grandes homens”, nos reis, nas guerras,
era dominante, o que não quer dizer que era o único estilo a ser escrito, mas
era o que tinha maior visibilidade. Os franceses da Escola dos Annales lançaram
uma crítica, a partir dos anos 1920, entre outras coisas, exatamente à essa
história política e militar, baseada apenas nos supostos “acontecimentos” (histoire
évenementielle, para usar o termo de Lucien Febvre) e em documentos
escritos. Contra ela, reivindicaram uma espécie de “história total”, que
tratasse de vários outros domínios, especialmente nos campos social e cultural,
e que se interessasse por outras questões, além das guerras e da política. Como
uma consequência lateral disso, pois nenhum dos historiadores do grupo dos
Annales o citam diretamente, houve uma reabilitação de Heródoto, agora não mais
o crédulo, ingênuo e “contador de estórias”, mas sim o Heródoto interessado em
questões sociais e de costumes, que buscava fontes, sempre que possível, nas
próprias culturas das quais falava, e, principalmente, o Heródoto que, ao
contrário de muitos narradores de guerras, não tratava o adversário apenas como
bárbaro que devia ser exterminado; o que também movia Heródoto, como ele diz em
um dos primeiros parágrafos de sua obra, era tentar entender como o império
persa surgiu, se tornou tão forte e uma ameaça a Grécia, e como,
posteriormente, acabou derrotado, embora fosse muito mais poderoso
militarmente.
Dessa maneira, a partir
da segunda metade do século XX houve uma grande produção de obras sobre
Heródoto, procurando aproximá-lo, do mesmo modo que ocorreu com a história em
geral, da antropologia e da etnologia, hoje vistas como aliadas da história. Além
disso, houve uma série de novas traduções da obra do autor, especialmente para
o inglês. Em posts futuros, vou apresentar um pouco desta produção mais recente
sobre Heródoto, e farei referências detalhadas a elas. Mas encerro este post
com a constatação de que esse é um outro elemento que explica o meu interesse
nele: sua valorização de outros costumes e culturas, seu interesse por coisas
que podem parecer sem muita relação com a narrativa central, em resumo, sua
curiosidade mais geral, sua visão da história como podendo tratar de mais do
que apenas um tópico especializado, são aspectos que correspondem muito com a
visão que tenho da história, e motivos que tornam, mesmo hoje em dia, 2.500 anos
após sua obra ter sido escrita, a leitura de Heródoto um grande prazer.
REFERÊNCIAS
FELDHERR, Andrew; HARDY,
Grant. The Oxford History of Historical Writing: Volume 1: Beginnings to AD
600. Oxford: Oxford University Press, 2011.
MOMIGLIANO, Arnaldo. “A
tradição herodoteana e tucidideana”. In: As raízes clássicas da
historiografia moderna. Bauru: EDUSC, 2004.